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Gestão de risco no agro: como proteger margem e resultado

O hedge agrícola deixou de ser um tema restrito às mesas de negociação. Em um mercado marcado por oscilações de preços, dólar, clima e custos, a gestão de risco...

Gestão de risco no agro: como proteger margem e resultado
Gestão de risco no agro: como proteger margem e resultado (Foto: Reprodução)


O hedge agrícola deixou de ser um tema restrito às mesas de negociação. Em um mercado marcado por oscilações de preços, dólar, clima e custos, a gestão de risco no agro passou a ser parte da rotina de produtores, gestores e empresas. Entender o mercado futuro da soja, acompanhar milho, avaliar estratégias com opções e conhecer operações de barter já não é apenas uma habilidade técnica. É uma competência de gestão. Isso porque produzir bem não garante, sozinho, um bom resultado financeiro. Uma fazenda pode colher uma safra excelente e, ainda assim, ter uma margem abaixo do esperado se o preço cair entre o plantio e a comercialização. Da mesma forma, uma indústria pode aumentar vendas e perder rentabilidade se o custo do milho subir de maneira inesperada. A questão central, portanto, não é apenas “quanto a soja vai valer?” ou “o milho vai subir?”. A pergunta mais importante é: quanto do resultado do negócio está exposto e o que pode ser feito para proteger essa margem? Por que o agro está tão exposto ao risco? Poucos setores convivem com tantas variáveis ao mesmo tempo quanto o agronegócio. O preço recebido pelo produtor ou pago por uma indústria pode mudar em função de fatores como: clima no Brasil, Estados Unidos ou Argentina; oferta e demanda mundial; câmbio; custos logísticos; estoques globais; ritmo das exportações; demanda chinesa; conflitos geopolíticos; juros; custos de produção; prêmio e basis; decisões comerciais dos grandes países produtores. E muitas dessas variáveis mudam ao mesmo tempo. Imagine um produtor brasileiro de soja. Mesmo que sua lavoura esteja se desenvolvendo bem, uma safra maior nos Estados Unidos pode pressionar os preços internacionais. Ao mesmo tempo, uma valorização do real frente ao dólar pode reduzir o valor convertido para reais. O resultado final depende de uma combinação de fatores. É por isso que gestão de risco não significa eliminar a incerteza. Significa saber onde estão as principais exposições e construir uma estratégia para reduzir o impacto delas sobre o negócio. O que é hedge agrícola? De forma simples, hedge é uma estratégia de proteção. No agronegócio, ele pode ser utilizado para reduzir o impacto de oscilações de preço, câmbio ou outros fatores financeiros. Considere duas situações. Produtor de milho: espera colher daqui a quatro meses e teme que o preço caia. Indústria compradora de milho: precisará comprar matéria-prima daqui a quatro meses e teme que o preço suba. Os dois estão expostos ao mesmo produto, mas em direções opostas. Por isso, antes de falar sobre contratos futuros, opções ou qualquer outro instrumento, é preciso entender o negócio. Algumas perguntas vêm primeiro: Qual é o custo de produção? Qual margem é considerada satisfatória? Quanto da produção já está comprometido? Quanto ainda está exposto? Quando o produto será vendido ou comprado? Qual é o impacto de uma alta ou queda de 10%, 15% ou 20%? Só depois dessas respostas faz sentido escolher uma estratégia. Hedge não é tentar acertar o melhor preço Esse é um dos pontos mais importantes. Fazer hedge não significa descobrir o momento perfeito de vender. Na prática, tentar acertar sempre a máxima do mercado é quase impossível. O objetivo da proteção é outro: dar mais previsibilidade à margem. Imagine um produtor de milho que tenha calculado seus custos e concluído que uma venda a R$ 70 por saca entrega uma margem interessante. Ele pode decidir proteger parte da produção nesse nível. Meses depois, duas situações podem acontecer: o milho cai para R$ 60; o milho sobe para R$ 80. Se cair, a proteção pode compensar parte da perda ocorrida no mercado físico. Se subir, o produtor pode deixar de aproveitar integralmente essa valorização sobre o volume protegido. Isso não significa que a estratégia foi ruim. O objetivo original era preservar uma margem considerada adequada. Essa mudança de mentalidade é importante: gestão de risco não busca o maior preço possível, mas um resultado sustentável. Como funciona o mercado futuro? Os contratos futuros são um dos instrumentos mais conhecidos de hedge. De maneira simplificada, eles permitem negociar hoje uma referência de preço para uma data futura. No agronegócio, podem ser utilizados tanto por quem produz quanto por quem precisa comprar uma commodity. Exemplo com milho Imagine uma propriedade que espera produzir 30 mil sacas de milho. O custo total estimado equivale a R$ 55 por saca. Ao observar o mercado, o produtor encontra uma possibilidade de proteger parte da produção em um nível equivalente a R$ 72 por saca. Nesse caso, existe uma margem potencial de R$ 17 por saca sobre aquela parcela. Ele pode decidir proteger, por exemplo: 30% da produção inicialmente; mais 20% caso a margem melhore; manter o restante aberto para decisões futuras. Assim, ele não depende de uma única venda nem de acertar um único momento. A comercialização passa a ser feita por etapas. E no mercado futuro da soja? A soja costuma exigir uma análise ainda mais ampla porque seu preço no Brasil é influenciado por diferentes componentes. Entre eles estão: preço internacional; câmbio; prêmio; basis; logística; condições locais de oferta e demanda. Por isso, olhar apenas para a cotação em Chicago não mostra toda a história. Exemplo simples Imagine uma soja negociada a um nível internacional atrativo. Ao mesmo tempo, o dólar está valorizado, favorecendo a formação do preço em reais. O produtor identifica uma margem interessante. Ele pode decidir proteger parte dessa margem. Semanas depois, Chicago pode até permanecer estável, mas o dólar cair. Nesse cenário, o preço em reais pode diminuir mesmo sem uma queda significativa na referência internacional. Isso mostra por que a gestão de risco precisa considerar as diferentes partes que formam o preço. O profissional não deve perguntar apenas: “a soja vai subir ou cair?” Ele precisa entender: “qual componente do meu preço está exposto?” Opções: proteção com mais flexibilidade As opções são outro instrumento utilizado em estratégias de hedge. Elas podem permitir a construção de uma proteção de preço sem necessariamente limitar todo o potencial de valorização. Imagine um produtor de soja que considera R$ 140 por saca um nível mínimo interessante para sua margem. Hoje, o mercado está em R$ 150. Ele teme uma queda, mas também acredita que o preço pode subir nos próximos meses. Uma estratégia com opções pode ser utilizada para criar algum nível de proteção em caso de queda. Se o mercado cair fortemente, a proteção ganha importância. Se o mercado subir, dependendo da estratégia adotada, o produtor pode continuar participando de parte dessa valorização. Essa flexibilidade, porém, normalmente possui um custo. Por isso, a escolha entre contratos futuros, opções ou outras ferramentas depende do objetivo. Não existe uma única solução adequada para todo mundo. Barter também é gestão de risco O barter é outra ferramenta bastante presente no agronegócio brasileiro. Em linhas gerais, a operação conecta a compra de insumos à entrega futura de parte da produção. Em vez de olhar apenas para o preço de fertilizantes, sementes ou defensivos em reais, o produtor pode avaliar quantas sacas serão necessárias para pagar por esses insumos. Um exemplo Imagine que um pacote de insumos para determinada área custe o equivalente a 1.500 sacas de soja. Ao fechar uma operação de barter, o produtor passa a conhecer antecipadamente uma relação importante entre seu custo e sua produção futura. Isso pode ajudar a reduzir determinadas incertezas. Mas existe um ponto importante. Se a expectativa for colher 10 mil sacas e o produtor comprometer 8 mil antecipadamente, uma quebra de safra pode gerar um problema. Por isso, barter também exige análise de: produtividade esperada; volume comprometido; custo dos insumos; preço utilizado como referência; condições contratuais; risco climático. A ferramenta não substitui a gestão. Ela faz parte dela. O erro de proteger 100% da produção de uma vez Gestão de risco não significa necessariamente travar toda a safra. Na prática, uma estratégia pode ser construída em camadas. Imagine um produtor que espera colher 20 mil sacas de soja. Ele pode definir uma política como: 20% comercializados quando determinada margem for atingida; 20% protegidos com algum instrumento financeiro; 20% negociados mais próximo da colheita; 40% mantidos abertos para novas oportunidades. Os percentuais são apenas ilustrativos. Cada operação precisa considerar sua própria realidade. A vantagem desse modelo é reduzir a dependência de uma única decisão. Em vez de tentar descobrir “qual será o melhor dia para vender?”, o produtor estabelece critérios. O risco não está apenas no campo Quando se fala em hedge, muitos pensam primeiro no produtor. Mas empresas de toda a cadeia podem estar expostas. Uma indústria que utiliza milho como matéria-prima, por exemplo, pode fechar contratos de venda antes de comprar todo o milho necessário para produzir. Se o preço do cereal subir muito nesse intervalo, a receita já pode estar definida enquanto o custo aumenta. A margem diminui. O mesmo raciocínio vale para: tradings; cooperativas; revendas; indústrias de alimentos; fabricantes de ração; exportadores; empresas que trabalham com insumos importados. Nesse caso, fazer hedge não significa proteger o preço de venda da produção. Pode significar proteger o custo da matéria-prima. Câmbio também faz parte da margem No agronegócio brasileiro, o dólar influencia inúmeras operações. Uma variação cambial pode alterar: preços de commodities; custos de insumos importados; receitas de exportação; despesas financeiras; margens de contratos futuros. Considere uma empresa que vai receber US$ 1 milhão em alguns meses. Se o dólar cair até a data do recebimento, o valor convertido para reais pode ser menor do que o esperado. Do outro lado, uma empresa que precisará pagar uma compra em dólares pode sofrer se a moeda subir. Por isso, em algumas operações, proteger apenas a commodity não é suficiente. É preciso olhar também para o câmbio. E o clima? Nem todo risco pode ser protegido com hedge Esse ponto é importante porque mostra os limites das ferramentas financeiras. Imagine um produtor que espera colher 100 mil sacas de milho e comercializa antecipadamente 90 mil. Se uma seca reduzir a produção para 60 mil sacas, haverá um problema. O preço estava protegido. O volume, não. Gestão de risco precisa considerar, ao mesmo tempo: risco de preço; risco de produção; risco financeiro; risco cambial; risco operacional. Por isso, hedge deve estar conectado a outras decisões, como planejamento de produção, seguro agrícola, fluxo de caixa e política comercial. Preço alto não significa necessariamente margem alta Essa é outra mudança importante de visão. Um produtor pode vender soja a R$ 150 por saca e ter uma margem pior do que alguém que vendeu a R$ 140. Tudo depende dos custos. O mesmo vale para empresas. Uma indústria pode vender mais caro e ainda perder margem se sua matéria-prima tiver subido ainda mais. Por isso, o profissional que trabalha com gestão de risco precisa olhar menos para o preço isolado e mais para a relação entre: receita + custo + exposição + margem. Exemplo Considere dois produtores. Produtor A custo: R$ 100/saca venda: R$ 145/saca margem: R$ 45 Produtor B custo: R$ 125/saca venda: R$ 155/saca margem: R$ 30 Mesmo vendendo a um preço menor, o produtor A tem uma margem maior. Esse tipo de análise muda a lógica da comercialização. Gestão de risco virou competência profissional Futuros, opções, câmbio e hedge já não interessam apenas a traders. Esses temas aparecem cada vez mais na rotina de profissionais de diferentes áreas. Quem trabalha com compras precisa avaliar risco de custos. Quem atua na área comercial precisa entender formação de preços. Quem está no financeiro precisa avaliar câmbio, margem e fluxo de caixa. Originadores precisam compreender tanto a necessidade do produtor quanto a dinâmica do mercado. Gestores precisam definir limites de exposição e políticas de comercialização. E o próprio produtor precisa conectar produção, custo, preço e margem. Por isso, conhecer gestão de risco não significa necessariamente operar derivativos. Significa ter capacidade de tomar decisões melhores em um mercado volátil. Do conhecimento técnico para a decisão Saber o conceito de um contrato futuro é importante. Mas não basta. O desafio é entender quando usar, quanto proteger e qual risco está sendo administrado. O mesmo vale para opções e barter. Na prática, uma boa gestão de risco exige uma visão integrada de: mercado físico; formação de preços; custos; câmbio; derivativos; margem; comercialização; execução. É essa integração que transforma uma ferramenta financeira em uma decisão estratégica. Por que fazer hedge deixou de ser opcional? Porque a exposição existe mesmo quando nenhuma proteção é feita. O produtor que deixa toda a sua produção aberta está exposto às oscilações do mercado. A indústria que precisa comprar milho no futuro e não protege seu custo também está. A empresa que recebe em dólar e mantém toda a exposição cambial aberta também está assumindo risco. Ou seja: não fazer hedge também é uma decisão de risco. Isso não significa que todas as operações precisem ser protegidas ou que exista um percentual ideal para todo negócio. Significa que produtores e empresas precisam saber quais riscos estão assumindo. Em um mercado no qual clima, câmbio, preço e oferta global podem mudar rapidamente, depender apenas da expectativa sobre o próximo movimento do mercado deixou de ser suficiente. Gestão de risco é, cada vez mais, gestão de margem. E gestão de margem é gestão do negócio. Aprofunde-se em gestão de risco no MBA da Agrinvest Compreender hedge é apenas uma parte da comercialização de commodities. Para tomar decisões consistentes, é preciso conectar formação de preços, mercado físico, futuros, opções, custos, risco e execução. No MBA Grain Merchandising Brazil, da Agrinvest, esses temas são trabalhados de forma aplicada à realidade da comercialização agrícola e da tomada de decisão no agronegócio. Aprofunde-se em gestão de risco no MBA da Agrinvest e desenvolva uma visão mais completa sobre mercado, preço, margem, risco e execução. Os exemplos apresentados neste conteúdo são simplificados e possuem finalidade exclusivamente educacional. Estratégias de hedge envolvem riscos, custos e particularidades que devem ser avaliados de acordo com cada operação.